Vista a Camisa da Empresa, desde que seja seu número - Negócios e Carreiras
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Vista a Camisa da Empresa, desde que seja seu número

A história das relações trabalhistas no Brasil é rica, especialmente no capítulo direitos e deveres. Mas a visão jurídica e legal que mostra o caminho da relação entre patrão e empregado seria a que determina a realidade?


Certamente você terá dito “não” para esta pergunta. E é por isso que esta reflexão passa longe dos conceitos embutidos na CLT. Não se trata aqui de se a empresa tem ou não direito de descontar isso ou aquilo do empregado ou se o empregado tem ou não direito de aceitar essa ou aquela imposição.

Estamos falando aqui de seres humanos.

“No Brasil, pretende-se em nome do ‘fim da era Vargas’, desmontar todo o sistema de relações de trabalho e instaurar um padrão mais ‘moderno’ e adequado à nova ordem mundial. É sabido, no entanto, que a flexibilização e desregulamentação de normas trabalhistas têm assumido significados distintos segundo os contextos nacionais”, dizem Eliana Pessanha e Regina Morel, professoras do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, no texto “As transformações nas relações de trabalho”.

A ideia de que a relação entre empregado e empregador é quase conjugal jamais esteve tão forte. Com aplicação de conceitos de psicologia institucional por parte do setor de RH, isso se torna evidente. Vejam-se:

  • Antes:
    • O humor do lar seguia o humor do chefe da família; na empresa, o humor do patrão
    • O marido mandava; o patrão mandava
    • Decisões eram apresentadas ao marido; também ao patrão
    • O chefe da família tinha a melhor parte do alimento; o patrão tinha a melhor parte da empresa
    • O chefe da família determinava as funções; o patrão também
    • O chefe da família designava custos e despesas; o patrão também
  • Depois:
    • O chefe da família tomava decisões, mas consultava a esposa e, às vezes, o filho mais velho; na empresa, o patrão toma decisões, mas considera um pouco mais ouvir funcionários escalonados
    • O chefe da família sugeria compras de bens e a esposa dava o aval, inclusive na cor do carro ou na localização da casa própria; na empresa, as compras seguiam estudos de mercado ofertador e condições de viabilidade
    • O chefe da família passou a promover reuniões informais sobre rumos gerais; na empresa, as reuniões passaram a ter caráter mais decisório
  • Agora:
    • Praticamente já não existe a figura do chefe da família; na empresa, o patrão está praticamente oculto no alto do organograma corporativo

Relações Corporativas Atuais

ON&C - Camisa1 regime macroeconômico do Brasil é capitalista. Ou seja, baseado em poder financeiro. Tendo sido um dos últimos países* a abolir a relação escravocrata produtiva, diz a antropologia que o sistema ainda está enraizado nas veias das relações trabalhistas.

É estranho isso, mas essa condição é visível sob luz de análise um pouquinho mais profunda.

Metas de vendas absurdas, imposição de estratégias antiéticas, reuniões em horários impróprios, agendas acirradas, dinâmicas internas avaliativas, monitoramento constante, obrigatoriedade de mostrar empatia e simpatia, dentre outras situações, caracterizam-se como chicotes capitalistas da era tecnológica.

Patrícia Bispo, em sua fantástica dissertação “Como estimular os talentos a ‘vestirem a camisa’ da sua empresa?”, apresenta outros chicotes, não obstante não ter sido essa sua intenção: contribuição, reconhecimento, confiança, liderança, desenvolvimento etc.

Provador de Camisas

A esmagadora maioria das vezes em que você compra camisa na embalagem somente porque constatou ser seu número é decepcionante. Incomoda embaixo no braço, o espaço entre os botões não é adequado, a gola não se acomoda.

  • Verifique se o conceito da empresa sobre “contribuição” é adequado para você. Muitas vezes, prêmios em dinheiro não significam nada, apesar do capitalismo coercitivo
  • Observe se “reconhecimento” por parte da empresa limita-se a um quadrinho com a foto 3×4 do funcionário que primeiro bateu a meta do mês
  • “Confiança” é sentimento conquistado e não obtido em cartório. Cochichos ao pé do ouvido entre chefe e colaborador é sinal de picuinha e não demonstração de confiança
  • Há muito, o termo “liderança” é discutido em conferências de profissionais de RH. Muito menos empresas do que você imagina conhecem o real poder desse título
  • Toda empresa nasce para se desenvolver. Não há quem se una a outro para formar uma empresa com intenção de ter prejuízo. A empresa quer se desenvolver a todo custo. Analise antes de “desenvolvimento” é termo associado somente a ela

A Camisa Incomoda Somente Após Anos de Uso

N&C - Camisa2“O cérebro humano é máquina perfeita”, dizem biólogos, psicólogos e filósofos. “Manipulável, mas perfeita”, deveriam concluir. O ser humano é incentivado a tudo a todo momento, inclusive a decidir que isso é consequência de sua própria vontade. Contudo, aqueles chicotes estão sempre em atividade sem serem percebidos porque a atenção humana está voltada a necessidades pessoais.

  • Pressão financeira
  • Regimento interno abusivo
  • Climatização física estratégica no ambiente corporativo
  • Incentivo à concorrência interna ferrenha
  • Cobranças pessoais e familiares
  • Amigos e colegas que cresceram
  • Vontade de Deus
  • Sentido de prosperacionismo incutido no dia a dia

Essas e outras centenas de questões agem na noção de profissionalismo de maneira tal que o colaborador se sente inserido nos ares pré-criados em estratégias de marketing, RH, motivadores profissionais, filmes de Hollywood, vídeos do youtube.

Efeitos da Camisa Sem Caimento

Ocorre que a noção de que a camisa não está caindo bem não é imediata, como acontece quando provamos uma física na loja. A “camisa corporativa” é moldada para não chamar a atenção quanto ao caimento.

  • Seu médico diz que sua pressão arterial não está bem, mas você toma todo cuidado com a saúde e não entende o motivo do diagnóstico
  • O último livro que leu foi o primeiro de Paulo Coelho e, apesar na nulidade do conteúdo, não se lembra quase nada do texto
  • Aquele vazio inexplicável no cotidiano não pode ser preenchido por nada
  • Há uma sensação de inoperância, de inatividade, ainda que trabalhe 16 horas por dia divididas entre o expediente e em casa
  • Sua conta bancária apresenta sempre um valor com o qual não concorda
  • Seu filho fez uma pergunta ontem, mas você não sabe se deu a resposta certa. Ou mesmo se respondeu
  • Você tira trinta dias de férias todos os anos, mas vive apenas três deles, ainda assim alternados, porque o smartphone, o notebook, o linkeID e o relatório de metas não saem de férias
  • Sua família aumentou – namorados e namoradas, netos e netas, amigos e colegas etc. Você até percebeu isso, mas teve contato somente no Natal ou no enterro de alguém muito próximo

Mas talvez não seja possível ao colaborador fugir dessas armadilhas. Deixe aqui seu comentário sobre como se sente em sua empresa, como seria o clima corporativo ideal e como seu sentido de profissionalismo sustenta sua personalidade.

É o que vamos ver aqui, no Negócios e Carreiras, na reflexão A Individualidade nas Equipes Corporativas”. Não percam!

Até lá!


* Mauritânia (África do Norte) foi o último país a abolir a escravidão sob a luz da Lei em 1981 – sim… há 35 anos -, mas, tanto lá como no Sudão e em outros países, ela ainda é aceita com normalidade. E aceita por parte dos próprios escravos

Serg Smigg
Ex-professor de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Ensino (SP), jornalista e filósofo, o autor nasceu em S. Paulo em 1958. Escreveu "As Últimas Ovelhas" (1998, ed. Papel&Virtual), "Tempestades de Palavras" (2013, ed. Amazon), além contos e crônicas corporativos diversos em sites e jornais regionais. Atualmente, é redator e revisor/formatador de textos em geral em revistas e jornais e palestrante organizacional.

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