Um novo modelo de consumo

A economia global vem se transformando nesses últimos anos onde a sociedade, de modo geral, vem adquirindo outras percepções nas relações de consumo quando se contrasta a forma de consumismo estritamente capitalista de outrora. A escassez sempre foi uma variável fundamental na ciência econômica dado o seu papel natural de limitador de recursos existentes no ambiente, bem como a variável chamada de custo de oportunidade que surge a partir da primeira ao confrontar duas ou mais alternativas passíveis de apenas uma escolha possível.

Observando o sistema capitalista tradicional vemos um processo de mudança que vem ocorrendo em direção ao consumo responsável, responsabilidade social e proteção ao meio ambiente em que as organizações precisam se moldar aos novos anseios da sociedade, sob o risco de não serem capazes de competir no mercado atual. A sociedade está exigindo maiores responsabilidades econômicas, sociais e ambientais. As relações de consumo progridem para um estágio em que o consumo consciente, o consumo saudável, a valorização do ambiente natural e a ideia de compartilhamento – apenas para citar algumas dessas relações, ganham força progressiva e continuamente.

A ideia do consumismo desenfreado em que os indivíduos adquirem bens e serviços de acordo com as conveniências empresariais caracterizadas, em sua ampla maioria, por um modelo de produção massificada conceituado como uma forma de consumo empurrado, está perdendo espaço no atual cenário social que emerge a partir dos anseios de uma sociedade mais informada, crítica e consciente.



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De acordo com a Harvard Business Review Brasil (2011), “o sistema capitalista está sitiado. Nos últimos anos, a atividade empresarial foi cada vez mais vista como uma das principais causas de problemas sociais, ambientais e econômicos. É generalizada a percepção de que a empresa prospera à custa da comunidade que a cerca”.

O modelo capitalista é, naturalmente, orientado ao consumo. A sociedade, pós segunda guerra mundial, caracterizou-se por um conjunto amplo de esforços teóricos e técnicos para aumentar o consumo em nível global. Diversos foram os modelos traçados para elevar o consumo a patamares jamais vistos na história da humanidade, visto que com o aumento gradativo da população mundial houve a necessidade de prover bens e serviços mais que suficientes.

Grandes avanços na área da gestão, engenharias, ciências médicas e tecnológicas impulsionaram de sobremaneira a evolução do consumo cada vez mais acelerado. A agricultura transgênica, a exploração de petróleo, recursos minerais e degradação de ambientes naturais, a industrialização de alimentos, a crise de abastecimento de água, poluentes que afetam a camada de ozônio, qualidade do ar, testes laboratoriais com animais, empoderamento econômico individualizado, são apenas alguns dos paradigmas atuais e alguns exemplos dos efeitos de um modelo capitalista orientado ao consumismo.

Conforme Boff (2014), “na medida em que crescem os danos à natureza que afetam mais e mais as sociedades e a qualidade de vida, cresce simultaneamente a consciência de que, na ordem de 90%, tais danos se tributam à atividade irresponsável e irracional dos seres humanos, mais especificamente, àquelas elites de poder econômico, político, cultural e mediático que se constituem em grandes corporações multilaterais e que assumiram por sua conta os rumos do mundo”.

É nesse sentido que o modelo de consumo empurrado vai se transformando em um modelo de consumo puxado, onde os indivíduos passam a assumir o controle de suas próprias vidas. Esse controle não diz respeito às conveniências individuais que eles relativizam com suas necessidades mais supérfluas. Ao contrário, a filosofia por detrás de um consumo mais consciente, crítico e informado remete ao conceito mais cru do termo conhecido como sustentabilidade. Ao colocar a natureza e o meio ambiente à frente do consumismo característico nas economias capitalistas, o conceito de sustentabilidade ganha terreno e força as organizações a se adequarem a esta nova realidade.

Esse novo modelo de consumo que vem transformando as estruturas e os processos de mercado vem acompanhado pelas novas tecnologias. As tecnologias da informação exercem papel fundamental como mecanismo propulsor de informações e de conhecimentos ao estreitar fronteiras em termos de comunicação e disseminação de informações de ambientes globais. O acesso à informação, muitas vezes de modo instantâneo, possibilita empregar esforços simultâneos convergentes para a resolução de determinados problemas. Em diversas partes do globo surgem movimentos que lutam por propósitos comuns, como aqueles que lutam pela preservação do ecossistema ou aqueles que lutam pelo acesso universal à saúde, educação, trabalho, transporte, alimentação, entre outros, por exemplo.

Este movimento é corroborado por Ruggie (2014), “grupos ativistas organizaram campanhas contra multinacionais. Comunidades locais começaram a se defender, especialmente contra companhias extrativistas e suas grandes pegadas físicas e sociais”. Estes movimentos de tendência que percorrem o globo vêm permeando e transformando o modo pelo qual se organizam os modelos de consumo e competitivos de outrora, a um ritmo de evolução jamais visto. A escassez e as limitações de recursos, sejam econômicos ou naturais, já está transparecendo no consciente e racional das sociedades. De acordo com Romero e Garcia (2015), “uma prova é o nascimento da economia colaborativa, um fenômeno que, gradualmente, tem ganhado muita força e está quebrando paradigmas de consumo estabelecidos até agora, com a geração do milênio como o expoente principal. A tecnologia está mudando os modelos de negócios tradicionais, focando nas necessidades dos consumidores“.

Diante deste novo conceito de consumo em que os indivíduos passam a trocar informações de modo compartilhado, as fronteiras praticamente desaparecem. Em qualquer lugar do mundo pessoas podem se organizar e trocar informações diversas sobre temas diversos, pois o acesso ao conhecimento é livre em muitas páginas da internet. Os exemplos mais comuns dessa rede de conhecimento são as Wikis, os fóruns de discussão, os blogs, as redes sociais e as plataformas de aprendizagem livres, entre outros.

Assim, a construção do conhecimento e seu uso passam a ser coletivos e, automaticamente, todo esse ativo intangível passa a exercer pressões diversas em termos de velocidade e capacidade de resposta às ações intentadas pela sociedade às empresas e aos governos.



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Essa nova tendência é observada por Romero e Garcia (2015),  “não há dúvidas de que a internet seja o meio de comunicação mais efetivo na cultura do compartilhamento”. E também é observada por Abramovay (2015): “a internet e a rede mundial de computadores abrem possibilidades inéditas para o avanço da cooperação humana. Daí vem a importância da economia colaborativa. Ela desfaz o mito segundo o qual esta cooperação só pode existir sobre a base da estrita defesa de interesses individuais”.

Aqui podemos citar diversas plataformas de acesso a conteúdos livres, como a Wikipédia que é a enciclopédia universal virtual mais acessada no mundo, sendo sua base dados construída de forma totalmente colaborativa, tanto que qualquer indivíduo pode acessá-la e editar o conteúdo da plataforma sempre que ache necessário, bastando logar-se. Ainda, podemos elencar as plataformas de ensino livres como o Coursera, a Khan Academy e o Veduca, entre outras, que permitem o acesso universal a diversos temas, assuntos e áreas do conhecimento científico, ou seja, qualquer pessoa pode aprender, praticamente, sobre qualquer coisa em que tenha interesse.

Essa universalização do conhecimento é extremamente importante. Ela cria novas possibilidades de desenvolvimentos políticos, econômicos e sociais. Ela racionaliza recursos tangíveis e intangíveis fundamentais que o modelo tradicional de consumo não seria capaz. E não estamos falando, apenas, de recursos tecnológicos e informativos. Isso incluí, também, recursos capitais e bens físicos, além de estruturas e processos. É uma total revolução da cadeia de valor.

Portanto, a economia colaborativa é uma realidade. Não é possível ignorá-la ou se abdicar dela. Como a tecnologia tem reduzido drasticamente os custos de transações empresariais ao partilhar recursos entre pares, como podemos observar com o Uber e o Airbnb, por exemplo, as fontes de vantagens competitivas oriundas desse novo modelo competitivo são muito maiores do que as fontes competitivas percebidas nos modelos tradicionais de competição. É a força do compartilhamento à serviço do progresso e da inovação.


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Diego Felipe Borges de Amorim

Bacharel em Administração - Faculdade Equipe (FAE - Sapucaia do Sul RS). Especialista em Gestão de Negócios - Universidade Luterana do Brasil (ULBRA - Canoas RS), Consultoria e Planejamento Empresarial pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós graduando em Planejamento Empresarial e Finanças pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI). Atualmente é técnico administrativo da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS). Colunista da Revista N&C e do portal Administradores.com. Profissional com experiência na iniciativa pública e privada. Acredita no poder das novas tecnologias para o avanço do conhecimento e na ruptura da forma tradicional de aprendizagem. Também acredita no poder das tecnologias livres para maior liberdade, inclusão e progresso humanos e na extrema importância da disseminação do conhecimento através de plataformas de ensino livres.

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