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Resenha do livro Nada Comum Dia Após o Outro

Autor da Resenha: Paulo José Vieira, em 09/05/2017

 

Resenha do livro Nada Comum Dia Após o Outro, de Jefferson Vasques (resenha de obra literária, 10h)

 

Informações sobre a obra literária analisada

Obra: Nada Comum Dia Após o Outro (poesia)

Autor: Jefferson Vasques (https://www.facebook.com/jeff.vasques)

Editora / Ano: Edith

Campinas, 2009

 

Resenha feita por Paulo José Vieira, graduado em Letras pela Unicamp, aluno do Curso de Ciências Contábeis EAD / Anhanguera (FAC-0169563197, Unidade Campinas FAC 1).

 

Jefferson Vasques é um poeta e multiartista de Campinas (SP). Publicou os livros de poemas “Subverso” (2009), “Nada comum dia após o outro” (2011) e “Te dou minha palavra” (2013). Além da poesia, Jefferson Vasques dedica-se à edição do blog cultural Eu Passarin.

Fica muito prejudicada nesta resenha qualquer tentativa de reproduzir o aspecto gráfico dos poemas, especialmente de “Nada comum dia após o outro”. Vale a pena conferir os livros, já que em vários poemas a dimensão concreta participa da construção da carga semântica. Os poemas mais curtos focam-se em apenas uma grande sacada: seja por paródias de ditados populares, seja por neologismos ao arremedo das palavras originais (“amor” pode virar “armor”), seja pela contração inovadora entre palavras (“um no outro” pode virar “uno outro”).

As construções simples e singelas arremessam o leitor para sentidos muito profundos. São “sacadas” que não se resumem ao humor e à gratuidade dos jogos de palavras, como prepondera em certa linhagem da poesia curta brasileira.

Os pequenos versos e os pequenos poemas começam entregando ao leitor uma dimensão singela e despretensiosa, por frases com dicção de provérbios e de oralidade. Até que a palavra surpreende, assombra seu senso comum, especialmente aos finais dos poemas: nada como um sentido nada comum vindo um após o outro. É um texto enxuto, mas não se usa a saída dos haicaistas, de ir preenchendo os vãos de um ritmo pré-determinado.

Em “Nada comum dia após o outro”, cada poema constrói sua verdade rítmica, embora prevaleça um “ritmo geral” por meio da prevalência dos versos curtos e dos poemas curtos.

O bonito é que isso não faz a poesia ensimesmar-se; pelo contrário, aquela combinação nova, escrita pela primeira vez, é lida como acessível e como se já fizesse parte há muito tempo da cultura ou do cerne até então irrevelado das próprias palavras, especialmente porque as palavras primitivas e as construções originais estão em nossa memória e conseguem dialogar com as construções novas.

O discurso da palavra parodiada é subvertido, causando-nos um estranhamento. Eis que é um espanto amigável, pelo qual conhecemos pela primeira vez coisas que nos parecem velhas conhecidas. É, pois, também, um exercício de “desconhecer” o conhecido, isto é, de criticar os sentidos originais tão batidos. Ainda que despretensiosa, a poesia gera informatividade e oportunidade de conhecimento sobre um pequeno mundo que se inaugura.

Os sons e os ritmos ajudam a promover o espanto. As palavras associadas pela superfície de suas sonoridades ligam-se uma às outras, num segundo momento, também pelo sentido. Por exemplo, a ligação primeiramente sonora entre “amor” e “armor” será uma chave que nos permitirá adentrar o lado sádico (“armado”) de um sentimento, lado este que não estava acessível na palavra original.

Ao final dos poemas de Jefferson Vasques, é comum o leitor sentir um sorriso à altura superior do estômago: mais cócegas do que socos, o que pode ser entendido como um atestado de que o leitor está formando com o autor uma sociedade de sentidos compartilhados.

Os textos do Jefferson Vasques carregam aspectos político-existenciais absolutamente pulsantes e conservam uma unidade temática em que prevalecem os temas sociais e afetivos (amores e memórias). O tema do amor é um dos mais presentes: um amor irrealizado não por ser platônico, mas por ser carnal e “realista” demais. Um amor que é desejo, que é pulsão, que é um desejo de se ter desejo, um desejo de significar efemeramente a vida fugaz e as relações humanas coisificadas.

Na resenha (anexa; trabalho entregue em conjunto com este resumo), apresentamos excertos de alguns poemas, para que o leitor tenha um contato direto com a obra. Os excertos escolhidos buscam exemplificar as teses que levantamos na resenha e que, de forma resumida, elencamos acima.

 

TRECHOS SELECIONADOS DE POEMAS:

Armor (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

amar é

olho no olho

dente por dente

os evangelhos

– você sabe –

mentem:

arames ao próximo

como a ti

sempre

……………………..

 

Quadras ao gosto impopular VII (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

casa

comida

e roupa lavada

car

comida

em tripla jornada

……………………..

 

Quadras ao gosto impopular VII (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

a lua

lá fora

tão cheia

de si…

cá dentro

eu já

nem sei

se…

……………………..

 

Amalgamar-se (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

mal

bem me quer

bem mal

me quer

……………………..

 

Plural e singular (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

um no

outro

uno

outro

noutro:

um

……………………..

 

[sem título] (do livro “Nada comum dia após o outro”, 2011)

“te amo” ou

“tchaum”?

[hoje em dia

tudo soa

tão igual…

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