Palestras Motivacionais: Fim de um Ciclo?

Ainda há espaço para palestras motivacionais? Como funciona a motivação? Quais os 5 fatores que medem a (quase) ineficácia das palestras de motivação?

As estruturas da comunicação corporativa e relacionamento interpessoal são fonte de discussões recorrentes. Há uma série infindável de sites que trata do assunto. Mas será que tais discussões são profundas o bastante para mostrar os reais empecilhos e entraves do dia a dia organizacional que estão determinando o fim de um ciclo de décadas?

Fala-se aqui do ciclo de palestras motivacionais. Em verdade, o fim do uso desse instrumento de relações internas está longe de se apresentar. Empresas, especialmente as brasileiras, ainda sentem que o nível de segurança de seus colaboradores está abaixo do esperado.

Desta forma, parece que mencionar fim de ciclo das palestras motivacionais torna-se tão tabu quanto muitos outros temas dentro do universo das organizações. É como pensa também Airton Cardoso Cançado, estudioso, no ensaio de 2009 “Gestão social: reflexões teóricas e conceituais Social management: theoretical and conceptual reflections”: “[…] as palestras motivacionais com pretensos conteúdos práticos (como se a teoria pudesse estar separada da prática) são apresentadas a esses mesmos alunos como se fosse o último Bestway taylorista ‘descoberto’ na área”. Então …

Motivação Existe?

Não se pode separar motivação do sentido acadêmico da Psicologia. Como se sabe, a mente humana é universo particular, de certa forma ainda intransponível – caso não fosse, a previsibilidade de posturas e decisões tornaria a vida um mar de desencanto.



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A palavra motivação vem do latim moveres e lembra motivo, ou seja, que se movimenta, que tem impulso para agir. No mundo organizacional, significa por analogia razão para ser produtivo e proativo. É natural ao ser humano que tal razão seja completamente individual, intrínseca ao indivíduo; isso é notado ao longo de milênios de história humana.

Durante processos motivacionais, essa relação se dá na direção do exterior para o interior, ou seja, de um indivíduo para outro indivíduo. Assim, como entender-crer que pessoas motivem pessoas?

Eis aí um dos grandes problemas do relacionamento humano: conflito entre o que se vê e o que se entende.

O ser humano é sempre produto do que viveu, de sua história de vida, da maneira como percebe o mundo exterior. Apesar de ser animal social – há milênios vive em grupos -, a individualidade pesa mais no momento de tomar decisões, de agir, de se comportar.

Isso significa que a história de João jamais será a mesma de Pedro, ainda que ambos sejam gêmeos com 50 anos de vida. Podem passar pelos mesmos problemas durante a vida inteira, mas a forma como os encaram e as impressões que tiveram deles serão diferentes entre si.

A Motivação do Palestrante ou do “Motivador”

As estratégias usadas pelo palestrante para motivar uma plateia são baseadas na exemplificação-comparação. Por mais forte, clara e técnica que seja a exposição do profissional, ela é sempre uma espécie de comparação entre o que ele próprio viveu e o que a plateia pode viver, entre o que ele aprendeu e o que a plateia pode aprender.

Assim, o palestrante que perdeu a mãe aos 10 anos se sentiu incentivado a cuidar da família; o outro, vítima de acidente de carro, aprendeu a dar valor a detalhes da vida; mais outro viu no nascimento do filho o real sentido da vida. Todos eles usam suas próprias experiências em suas palestras. Mas…

…Os Motivos de João Podem Ser Úteis para Pedro?

A resposta é “não”, segundo parâmetros da Psicologia; a resposta é “sim”, segundo a Filosofia; a resposta é “nunca” segundo o ditado popular “cada um com sua cruz”.

Esse “nunca” é evidenciado na postura de recém-dependentes de droga. Por mais que ouvem histórias, por mais que veem alertas na TV, por mais que conheçam os rumos dos colegas de vícios, permanecerão no vício até que experiências individuais mostrem que o caminho que tomou está errado.



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Guardadas as devidas proporções, é o que acontece com participantes de palestras motivacionais. Enquanto não se automotivarem, exposição de experiências de terceiros será apenas isso mesmo: experiências de terceiros.

Imagina-se plateia de cinquenta ouvintes de certa palestra motivacional. Há ali cinquenta universos de conflitos, prazeres, experiências, impressões – e cada uma delas em cada um desses tópicos é completamente diferente das demais.

A história (motivação) contada pelo profissional, as situações por ele analisadas, serão percebidas de maneira diferente por cada um. São como leitores de um grande livro: o enredo terá efeito diferente em cada leitor, ainda que a obra tenha tido milhares deles.

As 5 Quase Provas da Ineficácia das Palestras Motivacionais

1. Pressão externa

O conto clássico “A Roupa Nova do Imperador” (veja detalhes no link https://pt.wikipedia.org/wiki/A_roupa_nova_do_imperador), do dinamarquês Hans Christian Andersen, talvez ilustre com maestria a maneira como pressão psicológica externa surte efeito no comportamento dos ouvintes de palestras motivacionais. Estes se sentem orgulhosos ao mostrar a todos o quanto compreenderam do evento e o quão este lhes foi produtivo.

2. Teatralização

As experiências individuais do palestrante são apresentadas por técnicas de dramaturgia. E não poderia ser diferente, afinal, é necessário que cative e toque o sentimentalismo dos que o ouvem, de maneira que o investimento da empresa ou do ouvinte esteja muito bem aposto na relação custo-benefício.

3. Historicidade individual

O fato é que o palestrante assimilou impressões pessoais de sua própria história e das que ouviu durante sua carreira. Essas impressões não o tornam exemplo, não o transformam em herói, apesar de ser justamente esse o objetivo.

4. Comparação inconsciente

O indivíduo que ouve a maneira como o palestrante se portou diante das situações automaticamente a compara com sua postura real. Isso é natural no ser humano. “Bem… se ele conseguiu, eu também consigo…”; “ora… parece tão fácil, né?”.

Em meio à plateia de cinquenta pessoas, talvez duas ou três realmente se beneficiem dessa comparação. Mas por quanto tempo? E o restante da plateia? (Essas perguntas e outras serão discutidas na próxima dissertação deste site, “Como compreender o que diz o palestrante? – Não se sinta excluído do pódio”)

5. Crônicas Motivacionais

Você já parou para analisar as lindas crônicas que ouve em palestras ou livros de autoajuda, do tipo “O Sábio e a Vaquinha da Chácara” ou ainda “Ponha um Bode em Sua Sala”? São normalmente carregadas de ingenuidade. Mas seriam tão ingênuas assim? E teriam fundamento prático objetivo?

Bem… vamos conversar sobre isso em uma das próximas dissertações no site do Negócios e Carreiras, chamada “Crônicas que Motivam. Ou não”.


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Serg Smigg

Ex-professor de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Ensino (SP), jornalista e filósofo, o autor nasceu em S. Paulo em 1958. Escreveu "As Últimas Ovelhas" (1998, ed. Papel&Virtual), "Tempestades de Palavras" (2013, ed. Amazon), além contos e crônicas corporativos diversos em sites e jornais regionais. Atualmente, é redator e revisor/formatador de textos em geral em revistas e jornais e palestrante organizacional.

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