O início do movimento colaborativo global

 

O artigo anterior intitulado “um novo modelo de consumo” procurou identificar as variáveis que impactam e que caracterizam a economia colaborativa. Como visto, dois termos são essenciais para o entendimento deste novo modelo de consumo emergido a partir de novos paradigmas sociais: o modelo de consumo empurrado que caracteriza o modelo tradicional de mercado e, o modelo de consumo puxado que caracteriza o novo modelo de interação de mercado. O primeiro, estruturado pela produção massificada de produtos e serviços e orientado, exclusivamente, à obtenção de lucros. O segundo, orientado por uma produção de bens e serviços sustentáveis direcionado, principalmente, pela consciência da escassez de recursos, pela defesa dos ambientes naturais, pelas liberdades oriundas do acesso à informação e ao conhecimento e pela responsabilidade social.

Entretanto, entender o que é a economia colaborativa e quais são as suas potencialidades exige um maior grau de aprofundamento de seus termos. O tema é extremamente complexo e se orientar, apenas, por alguns eventos atuais pode ocasionar uma análise imperfeita e supérflua sobre este novo modelo de consumo. Muito embora, conforme Denoun e Valadon (2013) tenham observado, “Foi em 2008 que atingimos o limite. Juntos, a mãe natureza e o mercado disseram stop!”, na verdade, este movimento de conscientização e racionalização é anterior e remete à meados dos anos 1980 – considerando seus aspectos teórico e prático em escala global. E foi Richard Stallman o responsável por semear a ideia de compartilhamento e sustentabilidade através de seu projeto conhecido como GNU. O movimento do software livre mudou os rumos dos mercados globais.



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Não vou entrar em maiores detalhes sobre o movimento do software livre. Porém, é imprescindível entendê-lo para compreender a ideia por detrás da economia colaborativa, e incentivo a fazê-lo. Quem quiser saber mais sobre este importante movimento pode acompanhar um estudo que realizei sobre o tema em: http://semanaacademica.com.br/system/files/artigos/dfba_artigo.pdf . Dito isto, ao compreender tal filosofia de colaboração será possível entender os seus benefícios e as suas limitações. Também será possível diferenciar os diversos tipos de modelos de consumo colaborativo existentes na atualidade, e identificar àqueles que executam a verdadeira filosofia colaborativa livre e àqueles que praticam as “margens” da filosofia colaborativa. E acredite: para a maioria das pessoas, haverá muitas surpresas pelo que vou relacionar a partir de agora.

A atual tendência mundial de consumo está relacionada aos termos que moldam a filosofia sustentável. O termo conhecido como sustentabilidade permeia todos os campos de estudos e todos os modelos organizacionais atuais, onde teóricos, acadêmicos, gestores, intermediadores, fornecedores, legisladores, concorrentes, consumidores, parceiros de negócio e sociedade de modo geral entendem que o atual mecanismo de consumo e seu ritmo produtivo acelerado já não são mais compatíveis com os ambientes em que estamos inseridos. Seja porque atingimos o limite de utilização de recursos naturais, seja porque o atual modelo econômico de mercado esgotou-se. Em quaisquer um dos casos, isso significa que não temos mais uma margem de erro confortável para nos arriscarmos e, consequentemente, não toleramos mais os desperdícios. Estamos compreendendo as limitações da natureza e as nossas próprias.

Após esta breve introdução, volto a relacionar o movimento do software livre com o movimento da economia colaborativa. O projeto GNU de Stallman propiciou o início de um movimento colaborativo em escala global. Este movimento reuniu, inicialmente, diversos programadores de diversas partes do mundo que ajudaram a colocar tal projeto em prática. O objetivo foi construir um sistema operacional robusto, consistente, seguro e confiável de código-aberto e livre. Neste mesmo período, surgiu Torvalds que contribuiu para este movimento ao criar o primeiro sistema operacional completo em código-aberto conhecido como Linux. Este sistema de colaboração entre especialistas e sociedade se disseminou graças a internet que serviu de mecanismo básico para a proliferação do ambiente colaborativo em meados dos anos 1980.

É importante ressaltar que, embora o Linux tenha contribuído de sobremaneira para a evolução do projeto GNU, ele não é software livre. Ele faz parte do movimento Open Source que é diferente do movimento de software livre. São filosofias divergentes, mas ambas são provedoras do sistema colaborativo que promove as mudanças mercadológicas que presenciamos.

É interessante considerar que, muito embora o movimento colaborativo global seja possível, hoje, graças aos enormes avanços nas tecnologias da informação e da comunicação – TICs, quando Torvalds considerou construir um sistema operacional para rodar em seu computador pessoal, ele não estava pensando em ser altruísta e, muito menos, “um dia se tornar o “padrinho” do movimento do software livre. Ele prontamente admite que a ideia nunca foi vamos pegar isso e construir juntos um mundo melhor”. (BAGHAI & QUIGLEY, 2012)

Nesse sentido, podemos observar que ideias e ideais similares nem sempre são convergentes. Ou seja, as necessidades podem ser superficialmente parecidas como no exemplo de Stallman e Torvalds: ambos queriam construir um sistema operacional de código-aberto, porém cada um com sua filosofia. Mas foi o espírito de colaboração que possibilitou a consecução dos objetivos de ambos, ainda que as ideias e o ideais fossem diferentes num primeiro momento. E este sistema de cooperação, desde então, é extremamente viável sob o ponto de vista econômico e social. Ao dispor as informações abertamente para a construção de conhecimento, além de estreitar diferenças, acelera-se o seu processo. Todos ganham.

Mas o que seria do movimento colaborativo sem a mãozinha amiga da internet? De acordo com Macedo (2015), “a internet é o grande motor da economia colaborativa. Graças às massas de usuários, plataformas digitais podem ser aprimoradas e desenvolvidas em conjunto com consumidores. Mas aproveitar essa oportunidade é um desafio para alguns modelos de negócio tradicionais, avessos à ideia de compartilhar e abrir seus conteúdos na rede para acesso gratuito”.

O parágrafo acima pontua muito acertadamente a percepção distorcida de parte da sociedade capitalista para com o movimento colaborativo. São muitos os empresários que relutam em compartilhar informações com seus parceiros de negócio por diversos paradigmas, entre eles, o medo de “armar” seus concorrentes com informações, supostamente, valiosas e o medo de inovar. Há a percepção errônea de que tudo que é gratuito e livre não pode ser bom e confiável. Qualquer espécie de informação é tida como poder e essa não pode ser colaborada, segundo tais percepções. A sociedade comum desconhece que mais de 60% dos servidores de sistemas computacionais globais são mantidos por software livre. Basta pesquisar.

Por outro lado, Rodrigues (2015) aponta que “a internet pode nem ser mais o fator dinâmico no processo que estamos vivendo agora. Talvez não seja coincidência o fato de as novas formas de economia terem ganhado tração só depois que o bom e velho computador pessoal começou a ceder espaço para as tecnologias móveis“. E isso pode ser observado pela criação de aplicativos que promovem a dinâmica e o espírito do movimento colaborativo. O Uber talvez seja o mais lembrado. Porém, há tantos outros exemplos que existem de casos de sucesso referentes ao movimento colaborativo em diversos setores da economia e da sociedade. Alguns exemplos são a FSF e o OpenSuse, a Creative Commons, o YouTube, a Wikipedia e os Wikis, a Khan Academy, os fóruns de discussão, o banco JAK, o Airbnb, o WordPress, o Firefox e o LibreOffice, Cruz Vermelha, Amigos do Bem, MSF, os Fab Labs, entre outros.



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Grandes corporações sabem há algum tempo a importância da colaboração e por isso mantém programas de parcerias com diversos outros tipos de organizações ligadas ou não ao seu modelo de negócio. Segundo Laudon (2004), “na economia da informação, obter, distribuir conhecimento e inteligência e reforçar a colaboração em grupo têm-se tornado vitais para a inovação e sobrevivência organizacionais”. E cada vez mais as organizações entendem a importância em participar deste movimento que se revela extremamente promissor devido aos resultados positivos que ele traz para os negócios e para a vida. Tudo fica mais fácil com a colaboração e com o excelente desempenho que ela proporciona nos processos de negócios.

Portanto, esse é o caminho. Há de se entender que as pessoas são o ativo mais importante deste movimento e o desafio reside em alocá-las da melhor forma nos processos de negócios. Entretanto, não há uma perspectiva muito clara sobre o futuro exato deste novo movimento. Seja consumo colaborativo, economia colaborativa ou movimento colaborativo, ainda não sabemos muito sobre como será seu futuro. Ele apenas está iniciando.


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Diego Felipe Borges de Amorim

Bacharel em Administração - Faculdade Equipe (FAE - Sapucaia do Sul RS). Especialista em Gestão de Negócios - Universidade Luterana do Brasil (ULBRA - Canoas RS), Consultoria e Planejamento Empresarial pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Pós graduando em Planejamento Empresarial e Finanças pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI). Atualmente é técnico administrativo da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS). Colunista da Revista N&C e do portal Administradores.com. Profissional com experiência na iniciativa pública e privada. Acredita no poder das novas tecnologias para o avanço do conhecimento e na ruptura da forma tradicional de aprendizagem. Também acredita no poder das tecnologias livres para maior liberdade, inclusão e progresso humanos e na extrema importância da disseminação do conhecimento através de plataformas de ensino livres.

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